O crack tornou-se o "calcanhar de Aquiles" dos próprios traficantes. Estes, sedentos pelo lucro cada vez mais rápido, acabaram introduzindo em seus "negócios" uma droga tão devastadora que acabou desestruturando não só as famílias, a vida dos consumidores e a sociedade como um todo, mas, especialmente, o "meio de subsistência" dos próprios traficantes.
Divergente do que ocorre com outras drogas clássicas, o crack não comporta exceção e vicia imediatamente, dilacerando a vida do consumidor cujo único caminho certo, caso não busque tratamento, é a morte. O detalhe é que, nesse iter consumerista, o usuário desestabiliza-se socialmente de forma cabal, perdendo o emprego, o relacionamento salutar com amigos, com familiares, dentre outros problemas. Passa ele a ser um verdadeiro indigente, a bem da verdade, a ponto de não mais dispor de numerário para pagar a droga que consome, ou melhor, a droga que o consome. Aí vislumbramos a primeira dor de cabeça dos traficantes, qual seja, a carência de numerário, de dinheiro em espécie, de receita. Com efeito, o usuário, desestruturado socialmente, sem emprego, passa a furtar ou a roubar, para, com a res furtiva, pagar a droga. Aí exsurge outra problemática para o traficante, qual seja, eventualmente os usuários são flagrados e presos, tendo-se nas ruas menos consumidores. Por outro lado, os próprios filhos da comunidade em que reside e atua o traficante também se viciaram e furtam, agora, dia e noite, itens das suas famílias e dos vizinhos, para pagar o vício. Dessa arte, aquela certa indiferença que muitas famílias circunvizinhas do traficante tinham para com ele findou. Também não se olvide que a vida do consumidor do crack é muito curta, sendo que o período de consumo, logicamente, também é ínfimo, o que gera menos lucro para o traficante.
Por tudo isso, nada mais lógico, aquele que comercializa crack é um verdadeiro inimigo dos demais traficantes que, tendo um mínimo de noção sobre gerenciamento econômico, veem no crack um verdadeiro "tiro no pé". O extermínio daquele que trafica o crack pelos demais traficantes é algo puramente lógico. É o verdadeiro Armagedom: traficantes matando-se não pela disputa de território, mas pela tentativa desesperada de conter o avanço dos malefícios do crack. De tal forma como um buraco negro que consume o tempo e o espaço à sua volta, o crack consome a todos, incluindo o próprio tráfico, os próprios traficantes. Como dizem os velhos ditados: tudo que se planta, se colhe; aqui se faz, aqui se paga!
Roger Spode Brutti
Delegado da Polícia Civil de Santa Maria
Fonte: Site do Correio do Povo
|